Da polypill à literacia em consulta: ferramentas para combater a inércia clínica e a não-adesão do doente de risco cardiovascular
publicado em Notícias
12/10/2026
A ideia de que o controlo dos valores que surgem nos exames permite “fazer pausas” na medicação é um dos equívocos mais perigosos para o doente de risco vascular. Para José Pereira de Moura, internista na Unidade Local de Saúde de Coimbra e membro da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA), a eficácia do tratamento assenta em duas frentes: a simplificação posológica e uma pedagogia transparente sobre o carácter silencioso dos fatores de risco. Em declarações à News Farma no âmbito da Semana do Coração – iniciativa da SPA apoiada pela Servier –, o especialista analisa as estratégias para combater a inércia terapêutica e assegurar a adesão contínua ao esquema terapêutico. Assista aos vídeos.
O papel da polypill na simplificação posológica e na redução de eventos cardiovasculares
Na abordagem ao risco cardiovascular, José Pereira de Moura defende a necessidade de reformular o conceito tradicional de polimedicação em favor de uma “medicação adequada”, lembrando que a sobrecarga de comprimidos diários é uma das principais causas de abandono da terapêutica a longo prazo, mesmo em doentes que sofreram eventos graves como o enfarte agudo do miocárdio.
“Quando falamos de risco vascular, estamos a falar de risco global. E habitualmente os doentes têm não só um fator de risco, mas têm vários fatores de risco: desde a diabetes, à dislipidemia, à hipertensão arterial”, enquadra o especialista. Para ultrapassar a falta de adesão, José Pereira de Moura destaca os benefícios demonstrados pelas combinações de doses fixas: “Tudo o que seja reduzir o número de tomas ou de comprimidos diários, nomeadamente com a associação de diversos princípios ativos num único comprimido, tudo isso conduz ao aumento da adesão terapêutica e logicamente ao aumento dos resultados”.
O internista sublinha ainda que os ensaios clínicos com a polypill demonstram não só um superior controlo dos parâmetros analíticos, mas também uma redução efetiva no número de eventos clínicos e na mortalidade global e cardiovascular. “O combate à inércia pode perfeitamente ter como aliado indispensável a utilização da polypill, porque a adesão vai aumentar”, sintetiza José Pereira de Moura, reforçando que esta estratégia posológica beneficia tanto a decisão médica como a segurança do doente.
Fatores de risco silenciosos: é fundamental não esperar por sintomas para tratar
Um dos pontos mais críticos na consulta de Medicina Interna é desmitificar a ideia de que a ausência de sintomas físicos equivale a ausência de doença ou de risco cardiovascular. Como explica José Pereira de Moura, a ausência de queixas pode significar que ainda não existe doença clinicamente ativa ou, por outro lado, que os fármacos prescritos estão a atuar de forma confortável e bem tolerada pelo organismo.
“Nós temos de demonstrar ao nosso doente que qualquer destes dismetabolismos, seja a hipertensão, seja a dislipidemia, seja a diabetes e outros, têm um risco atribuível bastante significativo relativamente à doença vascular”, alerta o médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, recordando a expressão de que o colesterol LDL atua como um “assassino silencioso”.
Para o José Pereira de Moura, aguardar por manifestações físicas de doença metabólica é um risco que não se deve correr na prática clínica. “A pessoa não pode estar à espera de sentir seja o que for para se aperceber que tem o seu colesterol elevado. Quando a diabetes começa a dar sintomas, é sinal que, realmente, o dismetabolismo já atingiu um significado extremamente além daquilo que é razoável; mal quando nós estamos à espera de ter sintomas com a hipertensão arterial”, adverte, lembrando que quando surgem queixas o doente já se encontra frequentemente perante um evento agudo, como um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral (AVC).
Educação para a saúde: gerir expectativas para evitar a suspensão da terapêutica
Para envolver o doente de forma ativa na prevenção de eventos cardiovasculares, José Pereira de Moura sugere o recurso pedagógico às grelhas de avaliação de risco em consulta, demonstrando de forma visual e objetiva como o controlo da pressão arterial, da dislipidemia ou, por exemplo, da cessação tabágica reduz a probabilidade de complicações futuras.
O especialista aproveita para desmistificar a falsa convicção de que alcançar valores analíticos normais permite fazer “pausas” na medicação. “Nós temos que passar a noção ao nosso doente de que nós não estamos, com os fármacos que utilizamos, a curar o colesterol, não estamos a curar a hipertensão arterial, estamos sim a controlar estes fatores de risco”, esclarece o internista da ULS de Coimbra.
Neste sentido, ter as análises dentro dos valores recomendados demonstra a eficácia do tratamento, devendo ser mantido sem interrupções. “Se o seu colesterol está controlado, se a sua glicemia está controlada, se a sua tensão arterial está controlada (…) é sinal de que os medicamentos estão a ser eficazes e não podemos abandonar a medicação, porque senão o colesterol vai novamente subir, a pressão arterial vai novamente subir, a glicemia vai deixar de estar controlada”, declara, reforçando que o objetivo primário da terapêutica é evitar a instalação da doença cardiovascular e proteger a vida do doente.