Fatores de risco cardiovascular do século XXI: mudanças climáticas

Fatores de risco cardiovascular do século XXI: mudanças climáticas


publicado em Notícias

18/02/2026


As alterações climáticas são uma das grandes ameaças à saúde e qualidade de vida no século XXI. A organização mundial de saúde (OMS) estima que 13 milhões de mortes/ ano são atribuídas a alterações climáticas e que 90% da população mundial respira ar não saudável. O impacto das alterações climáticas na saúde tem várias vertentes, como as alterações da temperatura, as catástrofes naturais, a poluição do ar ou a alteração do ecossistema das doenças transmitidas por vetores ou pela água. A suscetibilidade da população a estas alterações depende de fatores demográficos, geográficos e socioeconómicos, mas também de fatores individuais como a fragilidade e comorbilidades de cada um. 

Uma das formas de avaliar a qualidade do ar é a concentração de material particulado (PM), que corresponde a partículas com um tamanho tão reduzido que se infiltra profundamente no nosso sistema, levando a alterações fisiopatológicas como a disrupção endotelial, a inflamação sistémica ou a estados protrombóticos. Esta alteração fisiopatológica leva ao aumento do risco de doença cardiovascular (EAM, AVC, arritmias ou insuficiência cardíaca), com estudos a demonstrarem um aumento de 10% de risco cardiovascular com aumentos de 10 μg/m3 na concentração de PM no ar. 

Quando falamos das variações de temperatura, é importante referir que entre os anos 1990 e 2015 a mortalidade por temperatura ‘não ótima’ aumentou 45%, sendo esse aumento mais evidente com altas temperaturas. Por outro lado, vários estudos e meta-análises demonstram que o aumento da temperatura, tão pequeno como 1º C acima da chamada temperatura ótima, onde o risco cardiovascular é menor, é suficiente para aumentar de forma significativa o risco cardiovascular. Uma meta-análise concluiu que o aumento de 1ºC leva a um aumento de 2,1% da mortalidade cardiovascular. 

É importante ter em conta, na avaliação do risco cardiovascular, o impacto da exposição às alterações climáticas, sendo pela exposição à poluição do ar ou a temperaturas não ótimas, para que possam ser tomadas medidas preventivas individuais. A prevenção do impacto das alterações climáticas passa por intervenções na comunidade como a sensibilização para os cuidados a ter na exposição a temperaturas extremas, os avisos de ondas de calor/frio, a avaliação dos indivíduos em situação de fragilidade e a disponibilização de abrigos. O investimento em espaços verdes nos centros urbanos, a adaptação dos edifícios para que sejam energeticamente eficientes e a aposta em energia não poluente são essenciais na minimização do impacto humano no clima. 

As alterações climáticas são, essencialmente, induzidas pelo Homem e apresentam um impacto na saúde no seu todo que tem vindo a aumentar de forma significativa ao longo dos anos. Como profissionais de saúde, devemos ter em conta a avaliação do risco da exposição a estas alterações e intervir preventivamente. Como cidadãos temos ainda a obrigação de minimizar o impacto ambiental de cada uma das nossas decisões. 

Rui Osório Valente
Especialista de Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose