Quando o todo é maior que as partes – Da obesidade à síndrome cardio-renal-metabólica
publicado em Notícias
10/12/2025
A expressão “o todo é maior que a soma das suas partes” foi popularizada por Aristóteles para descrever o conceito de sinergia, em que o resultado da combinação de diferentes elementos é mais significativo do que a simples adição desses elementos individuais. E esta verdade ancestral espelha com clareza a essência e a complexidade fisiopatológica da obesidade.
Mas estas palavras aristotélicas remetem-nos ainda para outra dimensão: a importância das palavras que usamos, a força da linguagem, o poder da comunicação. Sobretudo quando falamos de uma doença com este grau de complexidade e rodeada por um ciclo de culpa, estigma e vergonha que precisa de ser quebrado. Quando falamos de tantas “obesidades”, na sua pluralidade fenotípica. Quando devíamos falar de adiposidade, em detrimento de obesidade. E abandonar avaliações biométricas exclusivas como o IMC.
A obesidade é uma doença crónica baseada na adiposidade que impacta profundamente a saúde física e mental e afeta praticamente todos os sistemas do corpo.
Na realidade, obesidade e a síndrome cardio-renal-metabólica (SCRM), são dois espectros da mesma doença, é o todo – e não apenas a soma das partes – porque representa um continuum patológico em que o excesso de adiposidade leva à disfunção metabólica, cardiovascular e renal. E podíamos, e devíamos, continuar a acrescentar sufixos. Porque na verdade esta síndrome não se esgota nestas três dimensões.
Fisiopatologicamente, os adipócitos aumentados em tamanho e em número tornam-se disfuncionais, contribuindo para a acumulação de lípidos em depósitos de gordura ectópica e visceral (extravasamento lipídico). A adiposidade ectópica é a base da maioria das complicações relacionadas com a obesidade. O excesso de adiposidade disfuncional gera um estado lipotóxico, caracterizado por inflamação crónica sistêmica, resistência à insulina, disfunção endotelial e estresse oxidativo. E este risco metabólico inflamatório tem impacto direto nos diferentes órgãos e sistemas nomeadamente no coração, rim, vasos, fígado (na realidade em todos os órgãos e sistemas), acelerando o desenvolvimento de múltiplas doenças cardiovasculares – insuficiência cardíaca e FA, doença renal crônica e hipertensão resistente, MASLD, aterosclerose e síndromes coronários agudos…
Em resumo, a obesidade é uma doença neurológica com consequências que transcendem as metabólicas. Neste continuo fisiopatológico complexo e multiorgânico que caracteriza esta doença, surge o SCR resultado da interação complexa entre disfunção metabólica, inflamação e ativação neuro-hormonal.
A abordagem deve ser individualizada, integrada, multifatorial e personalizada, em que o objetivo é treat de target, visando a redução das complicações associadas a obesidade muito mais alem da perda de peso. Mas tão importante como tratar, a estratégia deve se focar na prevenção precoce da disfunção adipocitaria, determinante para a prevenção da doença cardiovascular no futuro.
Joana Louro
Assistente Hospitalar Graduada em Medicina Interna, ULSOeste