CPC 2026
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22/02/2026
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22/02/2026
Portugal registou, na última década, uma redução significativa da mortalidade por doenças do aparelho circulatório, tendo a proporção de óbitos por estas patologias atingido, em 2023, o valor mais baixo dos últimos 30 anos.
De acordo com o relatório “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)”, divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) apesar de estas patologias continuarem a ser a principal causa de morte em Portugal, representando cerca de 25% do total de óbitos, “a sua proporção tem vindo a diminuir de forma sustentada, aproximando-se pela primeira vez da observada para os tumores malignos”.
A DGS destaca que Portugal apresenta atualmente indicadores de mortalidade cérebro e cardiovascular iguais ou inferiores à média europeia. O relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro e Cardiovasculares (PNDCCV) revela “melhorias relevantes”, entre 2015 e 2024, nos cuidados de saúde primários, com aumento da proporção de doentes com pressão arterial controlada e de pessoas com diabetes com níveis de colesterol LDL controlado.
Sublinha também “um aumento marcado das consultas de cessação tabágica, sinalizando melhor controlo dos fatores de risco cardiovasculares”.
O relatório revela ainda que mais de 65% dos internamentos por AVC e insuficiência cardíaca ocorrem em pessoas com mais de 70 anos. No entanto, salienta, “a consolidação das Vias Verdes do AVC e da Via Verde Coronária teve impacto direto na sobrevivência dos doentes”.
Evidencia também “uma transformação tecnológica marcada, com crescimento sustentado dos procedimentos minimamente invasivos e maior recurso a terapêuticas avançadas, alinhando Portugal com os padrões europeus de cuidados cardiovasculares”.
Para mais informações consulte o site da DGS.
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18/02/2026
As alterações climáticas são uma das grandes ameaças à saúde e qualidade de vida no século XXI. A organização mundial de saúde (OMS) estima que 13 milhões de mortes/ ano são atribuídas a alterações climáticas e que 90% da população mundial respira ar não saudável. O impacto das alterações climáticas na saúde tem várias vertentes, como as alterações da temperatura, as catástrofes naturais, a poluição do ar ou a alteração do ecossistema das doenças transmitidas por vetores ou pela água. A suscetibilidade da população a estas alterações depende de fatores demográficos, geográficos e socioeconómicos, mas também de fatores individuais como a fragilidade e comorbilidades de cada um.
Uma das formas de avaliar a qualidade do ar é a concentração de material particulado (PM), que corresponde a partículas com um tamanho tão reduzido que se infiltra profundamente no nosso sistema, levando a alterações fisiopatológicas como a disrupção endotelial, a inflamação sistémica ou a estados protrombóticos. Esta alteração fisiopatológica leva ao aumento do risco de doença cardiovascular (EAM, AVC, arritmias ou insuficiência cardíaca), com estudos a demonstrarem um aumento de 10% de risco cardiovascular com aumentos de 10 μg/m3 na concentração de PM no ar.
Quando falamos das variações de temperatura, é importante referir que entre os anos 1990 e 2015 a mortalidade por temperatura ‘não ótima’ aumentou 45%, sendo esse aumento mais evidente com altas temperaturas. Por outro lado, vários estudos e meta-análises demonstram que o aumento da temperatura, tão pequeno como 1º C acima da chamada temperatura ótima, onde o risco cardiovascular é menor, é suficiente para aumentar de forma significativa o risco cardiovascular. Uma meta-análise concluiu que o aumento de 1ºC leva a um aumento de 2,1% da mortalidade cardiovascular.
É importante ter em conta, na avaliação do risco cardiovascular, o impacto da exposição às alterações climáticas, sendo pela exposição à poluição do ar ou a temperaturas não ótimas, para que possam ser tomadas medidas preventivas individuais. A prevenção do impacto das alterações climáticas passa por intervenções na comunidade como a sensibilização para os cuidados a ter na exposição a temperaturas extremas, os avisos de ondas de calor/frio, a avaliação dos indivíduos em situação de fragilidade e a disponibilização de abrigos. O investimento em espaços verdes nos centros urbanos, a adaptação dos edifícios para que sejam energeticamente eficientes e a aposta em energia não poluente são essenciais na minimização do impacto humano no clima.
As alterações climáticas são, essencialmente, induzidas pelo Homem e apresentam um impacto na saúde no seu todo que tem vindo a aumentar de forma significativa ao longo dos anos. Como profissionais de saúde, devemos ter em conta a avaliação do risco da exposição a estas alterações e intervir preventivamente. Como cidadãos temos ainda a obrigação de minimizar o impacto ambiental de cada uma das nossas decisões.
Rui Osório Valente
Especialista de Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose
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05/02/2026
A Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA) e a Sociedade Europeia de Aterosclerose (EAS) têm o prazer de convidar todos os sócios a participar no webinar “National webinar on the 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines on the management of dyslipidaemias”, a realizar no dia 9 de fevereiro.
Este evento surge num momento crucial para a atualização da prática clínica, permitindo a disseminação das novas recomendações internacionais e a sua adaptação às prioridades e à realidade nacional.
Detalhes do Evento
Painel de Oradores e Programa
O webinar contará com a moderação do Prof. Alberto Mello e Silva e do Dr. Francisco Araújo, reunindo especialistas de renome internacional:
Esta é uma oportunidade única para fortalecer a ligação entre a rede nacional e os peritos internacionais, garantindo que a abordagem ao risco cardiovascular em Portugal se mantém na vanguarda da ciência.
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27/01/2026
O mundo da inteligência artificial viveu o seu “momento iPhone” com a apresentação pública do ChatGPT em 2022. Muitas daquelas técnicas e modelos eram já conhecidos por aqueles que dominavam a área. Porém, a sua disponibilização ao público demonstrou as enormes potencialidades desta tecnologia, levando a um crescimento exponencial, que toca hoje todas as áreas. A Medicina não é, naturalmente, exceção, e também aqui estamos a viver grandes transformações — e seguramente viveremos ainda maiores em anos vindouros.
A fenotipagem da aterosclerose é um desafio clínico particularmente relevante. Interessa-nos prever a probabilidade de eventos com base em constelações de fatores de risco clássicos e integração com exames complementares de diagnóstico, cuja análise e interpretação se pretende o mais rápida e eficaz possível. Também neste domínio a inteligência artificial pode constituir uma ajuda preciosa.
Seria excelente que, ab initio, conseguíssemos utilizar de forma mais eficiente e eficaz as ferramentas já existentes. Por exemplo, aplicar automaticamente scores de estratificação de risco (que atualmente ainda exigem o uso de calculadores semi-automáticos) seria um passo substancial na melhoria da fenotipagem da aterosclerose, dado que muita estratificação ainda é feita “a olho”. Neste sentido, a inteligência artificial poderá vir a ser útil se — e quando — for implementada como ferramenta de screening dos registos médicos eletrónicos, permitindo o cálculo e a estratificação de risco de forma totalmente automática, sem intervenção direta do médico. Poderá igualmente auditar os resultados das intervenções terapêuticas, aferindo se o doente está ou não a ser alvo de um controlo adequado para o seu perfil de risco. Os dados disponíveis — portugueses, europeus e mesmo mundiais — mostram que estamos muito aquém dos ambiciosos alvos definidos pelas sociedades científicas. A inteligência artificial poderá, assim, revelar-se de grande utilidade neste contexto.
Mas não só. Se pensarmos em todo o percurso clínico do doente, a inteligência artificial pode ser valiosa em múltiplos momentos. Já verificámos que pode auxiliar na elaboração de registos clínicos, libertando o médico para interagir diretamente com o doente. Já existem escrivas médicos em prática clínica capazes de o fazer. Existem igualmente empresas dedicadas à interpretação clínica por inteligência artificial, que conseguem extrair pequenas informações com base em alterações subtis do tom de voz do doente.
E nos meios complementares de diagnóstico, tão essenciais à fenotipagem de facto da aterosclerose?
No eletrocardiograma, já há algoritmos de inteligência artificial com elevada capacidade preditiva, capazes de detetar a ocorrência de um enfarte agudo do miocárdio através de uma análise totalmente automática do ECG.
Na ecocardiografia, um ensaio clínico demonstrou que a inteligência artificial é tão capaz de efetuar medições corretas como operadores experientes.
Na AngioTC coronária e TC “simples” — ferramenta crucial para a caracterização da aterosclerose, nomeadamente da doença coronária — existe atualmente software em fase de validação que permite a caracterização detalhada das placas ateroscleróticas, tanto do ponto de vista qualitativo (por exemplo, vulnerabilidade, composição, conteúdo cálcico), como quantitativo (grau de estenose). Estas ferramentas poderão acelerar o processo analítico e fornecer recomendações automáticas.
Também na área invasiva já existe evidência de que a inteligência artificial consegue tornar as imagens da angiografia coronária mais objetivas, reduzindo a variabilidade intra e inter-operador, bem como derivar diretamente parâmetros fisiológicos a partir de imagens de angiografia ou fazer uma análise totalmente automática de imagens de ecografia ou OCT intra-coronário.
Em suma, a inteligência artificial veio para ficar. Temos a responsabilidade de a integrar devidamente na Medicina, a fim de promover o seu uso seguro e frutuoso.
Miguel Nobre Menezes
Especialista em Cardiologia, Hospital de Santa Maria
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26/01/2026
Edifício da AHED, em Carcavelos
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21/01/2026
A Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA), com o apoio da Tecnifar, realizou o 1.º Congresso Online de Risco Vascular e Dislipidemia em Cuidados de Saúde Primários para debate de casos clínicos, estudos e projetos no âmbito do risco vascular e dislipidemia em Cuidados de Saúde Primários (CSP). São agora anunciados os trabalhos vencedores do evento:
1.º lugar
“Casuística de uma Unidade de Saúde Familiar do Algarve – Desafiar o risco cardiovascular em doentes com VIH”
Investigador Principal: Dr.ª Ana Paula Romualdo (USF Ria Formosa – ULS Algarve)
2.º lugar (menções honrosas)
“Perfil de Risco Cardiovascular pré-evento em doentes seguidos nos Cuidados de Saúde Primários”
Investigador Principal: Dr.ª Luísa Sá Almeida (Unidade de Saúde Familiar Anta – ULS Gaia e Espinho)
“Do sintoma inespecífico ao diagnóstico de doença coronária: a importância da avaliação global do risco cardiovascular”
Investigador Principal: Dr.ª Mariana Silva (USF Carolina Beatriz Ângelo | ULS Guarda)
A SPA parabeniza os vencedores.
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05/01/2026
Os não-fumadores expostos ao fumo do cigarro passivo ou, simplesmente fumo passivo (FP), apresentam um risco acrescido de desenvolver diversas doenças graves. No entanto, os mecanismos moleculares que explicam estes efeitos continuam pouco esclarecidos, o que reforça a necessidade de identificar biomarcadores capazes de avaliar o risco associado a esta exposição.
Neste estudo, analisámos o proteoma do epitélio nasal e do plasma de indivíduos não-fumadores saudáveis expostos ao FP no local de trabalho, num contexto ainda enquadrado pela Lei n.º 37/2007, utilizando uma abordagem proteómica ‘shotgun’ por espectrometria de massa. No epitélio nasal, observámos um aumento de proteínas envolvidas em vias centrais do metabolismo energético, como a Gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase (GAPDH) e a triosefosfato isomerase (TPI1), sugerindo uma possível reprogramação metabólica induzida pela exposição. Identificámos também uma diminuição da tubulina beta-4B (TUBB4B), relacionada com a organização do citoesqueleto, e um aumento da proteína anti-apoptótica SERPINB3, apontando para alterações em processos de morte e sobrevivência celular.
No plasma, destacaram-se o aumento da butirilcolinesterase (BChE) e a diminuição da Proteína de ligação à vitamina D (GC), ambas associadas à resposta a xenobióticos e a processos de lesão tecidular. Foram ainda detetadas alterações em proteínas reguladoras da inflamação sistémica, como C1R, C1QC, HRG e PROS1. A expressão diferencial de APOA4 e SERPINF2 sugere, adicionalmente, a ativação de mecanismos relacionados com risco aterotrombótico.
Em conjunto, estes resultados contribuem para aprofundar a compreensão das vias biológicas que ligam a exposição ao fumo passivo ao risco acrescido de cancro e de doenças cardiovasculares, e apresentam um conjunto promissor de potenciais biomarcadores para avaliação do risco associado à exposição ao FP.
Leia o artigo completo aqui.
Autores: Sofia Neves 1,2; Solange A. Pacheco 1; Fátima Vaz 1,2; Cristina Valentim-Coelho 1; Joana Saraiva 1,2; Peter James 3; Tânia Simões 4; Deborah Penque 1,2
Afiliação: 1 – Laboratório de Proteómica, Departamento de Genética Humana, Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Lisboa, Portugal; 2 – Comprehensive Health Research Centre, NOVA Medical School, Universidade NOVA de Lisboa, Lisboa, Portugal; 3 – Protein Technology Laboratory, Department of Immunotechnology, Lund University, Lund, Suécia; 4 – CECAD – Cologne Excellence in Aging Research, University of Cologne, Colónia, Alemanha
Revista: Observações – Boletim Epidemiológico do INSA, 2025, Vol. 38, nº 38, pág. 71-75
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16/12/2025
A alimentação é um determinante central do risco vascular e tem impacto na modulação da inflamação vascular, do stress oxidativo e da disfunção endotelial, mecanismos importantes na progressão da aterosclerose.
As Guidelines ESC 2021 e da Sociedade Espanhola de Aterosclerose (SEA, 2024) recomendam a adoção de um padrão alimentar tipo mediterrânico, com elevado consumo de frutas, hortícolas, leguminosas, frutos oleaginosos e cereais integrais, e predomínio de gorduras mono e polinsaturadas, particularmente o azeite virgem extra (EVOO). O consumo de peixe, especialmente de espécies ricas em ácidos gordos ómega-3, é incentivado, enquanto carnes vermelhas e processadas, produtos ultraprocessados, sal e açúcares adicionados é limitado. A evidência sublinha que mais importante do que reduzir a gordura saturada é o que a substitui: trocas por gorduras insaturadas reduzem o colesterol LDL (Ros et al., 2025).
Estudos clínicos randomizados corroboram estas recomendações. O estudo PREDIMED, de prevenção primária, demonstrou uma redução relativa de 30% em eventos cardiovasculares major em indivíduos que seguiram uma dieta mediterrânica (DM) suplementada com EVOO ou frutos oleaginosos (Estruch et al., 2018). O estudo CORDIOPREV, de prevenção secundária, evidenciou menor progressão da aterosclerose com uma DM rica em EVOO comparativamente a uma dieta hipolipídica e rica em hidratos de carbono complexos (Jose Jimenez-Torres 2021).
Por outro lado, a ESC/EAS 2025 e a SEA 2024 concluem que a suplementação com vitaminas e minerais não é recomendada para redução de risco vascular, pela ausência de evidência de benefício e potenciais riscos em doses elevadas.
A SEA 2024 acrescenta que padrões alimentares de elevada qualidade promovem não só saúde vascular, mas também sustentabilidade ambiental, sendo apresentada como uma medida que beneficia simultaneamente a saúde individual e a do planeta.
A evidência atual aponta para que a qualidade global da dieta, mais do que um único padrão alimentar, seja o principal preditor de proteção vascular. Uma meta-análise de 159 estudos prospetivos (6,2 milhões de participantes), mostrou que dietas de elevada qualidade reduziram em 17% a incidência e mortalidade por doença cardiovascular (Taylor et al., 2023). O conceito de padrão alimentar, ao invés do foco em nutrientes isolados, reflete a interação sinérgica entre nutrientes e compostos bioativos na matriz dos alimentos, modulando vias metabólicas e inflamatórias determinantes da função vascular.
No contexto português, a DM assume-se enquanto modelo alimentar de promoção de saúde vascular e sustentabilidade. A sua implementação requer o envolvimento coordenado de nutricionistas, médicos, farmacêuticos, e outros profissionais de saúde, através de intervenções breves, consistentes e baseadas na evidência. É com esta ação coletiva, juntamente com a implementação de políticas de produção e consumo alinhadas com as recomendações, que poderemos, efetivamente, tornar a aterosclerose uma doença rara.
Ana Margarida Pinto
Nutricionista. Laboratório de Nutrição | Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa